Atualmente muitos leitores de quadrinhos estão chiando em função da atual mania da DC e da Marvel: as mega-sagas. Realmente é algo que enche o saco, principalmente pelo fato de que no Brasil alguns personagens participantes das ditas não têm espaço suficiente (se é que têm) nos mix das revistas publicadas. Isso pode gerar dois tipos de reação. A primeira, e menos comum, é o interesse em buscar por mais informações sobre aquele personagem que teve alguma participação relevante, mas que não é conhecido; ou abandonar a leitura porque se tem preguiça de procurar as informações necessárias.
Lá fora, nos EUA, essa onda de mega-sagas já deu sinais de estar perdendo o fôlego, principalmente pelo fato da DC estar amargando a perda de leitores em função da falta de habilidade na costura de suas sagas.
Esse é um processo natural, que deve desembocar em uma outra febre assim que seja usada uma artimanha que aumente as vendas e o interesse dos fanboys mundo afora. Na década de 90 a fórmula mágica de boas vendas foram os crossovers, histórias onde dois ou mais personagens que pouco tinham em comum se encontravam. O roteiro mais comum pra esses encontros era os heróis se encontrarem, não irem com a cara um do outro e quebrarem o pau, até se tocarem que havia uma ameaça que, para ser vencida, precisava de sua cooperação mútua. Clichê a dar com o pau, mas muita gente comprava essas revistas pra saber quais seriam as possibilidades exploradas pelos escritores e desenhistas; e nem sempre o resultado saía como o esperado.
De início, a idéia de um crossover pode ser uma excelente maneira de aumentar o público de determinado personagem. Basta fazer com que este se encontre com outro cuja popularidade já esteja consolidada. Isso fará com que aqueles que são fãs do popular conheçam o “novato” e possam se interessar pelas suas histórias. Mesmo quando acontece a reunião de dois medalhões, isso pode ser benéfico para ambos os personagens, pois os fãs de um podem também começar a curtir o outro, ampliando sua legião de seguidores.
No final da década de 70 e no início da década de 80 foram feitos crossovers entre os X-Men e os Novos Titãs, o Super-Homem e o Homem-Aranha, Batman e Hulk. Todos estavam com suas reputações em alta e provavelmente as histórias foram um sucesso de vendas. A Abril relançou esses encontros em meados da década de 90, justamente aproveitando a onda de crossovers que varria as grandes editoras.
Foi juntando um grande ícone dos quadrinhos com outro popular nos cinemas que, pode-se dizer, iniciou-se a nova era dos crossovers. Batman versus Predador foi uma boa história, com bons desenhos, que mostrou um caminho cheio de grana a ser trilhado. A fórmula era fácil, bastou que os detentores dos direitos sobre os personagens escolhidos entrassem em acordo e presto!, esvaziaram os bolsos dos fãs. Daí a sair publicando encontros a torto e a direito foi um pulo. Foram vários e nem sempre bem arquitetados, mas que nem por isso foram desprezados. Particularmente comprei diversos, principalmente aqueles que traziam o Batman na capa. Um que merece destaque foi o primeiro encontro do Morcegão com o Juiz Dredd. Apesar da história seguir a cartilha “mocinho-encontra-mocinho-e-se-quebram-pra-depois-se-unir”, ali havia a diferença na motivação pessoal dos personagens e, desse conflito, saiu uma revista divertida e de leitura agradável, com a arte de Simon Bisley surgindo como uma porrada visual para aqueles que estavam acostumados ao estilão americano de desenhar Hqs.
O ápice dessa febre dos crossovers veio com o grande confronto entre DC e Marvel. Era tudo que os fãs queriam, poder finalmente ver seus personagens favoritos de cada editora se encontrando em uma grande história. Mas nem de longe foi isso o que aconteceu. A idéia central da história ficou fraco e as editoras cometeram a burrice de deixar nas mãos dos leitores a decisão sobre quem venceria os embates principais entre os personagens, tornando a história um mero concurso de popularidade. Ou alguém que tenha lido a revista engoliu numa boa a vitória do Wolverine sobre Lobo? Nem mesmo o mais fanático fã do canadense tem argumentos consistentes para sustentar essa vitória. Aliás, foi um dos pontos mais patéticos da história. Como não havia uma maneira decente de mostrar a vitória de Wolverine sobre o Maioral, jogaram os dois pra trás de um balcão de bar e o Wolverine sai de lá como se nada tivesse acontecido. Lamentável.
Depois disso, ainda foram lançados mais dois grandes encontros entre as editoras, tentando remendar a bobagem que foi a primeira, mas sem sucesso. E DC versus Marvel foi o início do fim. Exemplo disso foi Spawn e Batman, em seus dois encontro, um pior que o outro. O primeiro, com os desenhos de Todd McFarlane e sob a batuta de Frank Miller, mostrando ali que, apesar de ser um dos membros da santíssima trindade dos quadrinhos, também ele era capaz de escrever lixo. Como eu sabia que ia demorar um certo tempo até essa história ser lançada por aqui e sem saber a porcaria que era, comprei a edição importada. Ao menos serviu pra aprimorar meu inglês. Já o segundo encontro foi um abacaxi místico muito pior do que a bobagem armamentista do primeiro e nem merece comentários.
Vieram ainda outras histórias mostrando grandes e consagrados personagens, como o Surfista Prateado, por exemplo, se encontrando com o Super-Homem, com o Lanterna Verde e como figurante no encontro entre Galactus e Darkseid. A maioria desses encontros foi simplesmente um desperdício de papel por parte das editoras e de tempo, por parte dos leitores. Exatamente como está acontecendo atualmente no mercado editorial com as mega-sagas.
Porém os efeitos nocivos em tempos de internet, scans de revistas e a atual perda de leitores das histórias em quadrinhos para mangás podem ser devastadores. Não é à toa que a DC virou saco de pancada e a tal Countdown está afundando a editora no mercado americano. Saber sair do palco enquanto se está sendo aplaudido é uma lição que nem todos aprenderam ainda.