segunda-feira, 9 de junho de 2008

Tropa de Elite Reloaded

Não se trata de notícias sobre uma eventual continuação do melhor filme nacional dos últimos anos. Na verdade o que me levou a falar sobre Tropa de Elite novamente foi o fato de ter recebido de uma colega um texto escrito na época que o filme ainda estava na boca do povo.

O importante nesse texto foi o fato de que existem outras faces do crime organizado que podem ser exploradas em mais filmes, contribuindo para o aumento da discussão que levará esse país a um patamar mais aceitável de qualidade de vida. E digo em mais filmes porque a pirataria sofrida por Tropa comprovou que o povão acaba correndo atrás daquilo que lhe proporciona entretenimento.

É bem verdade que a linguagem para atingir a cabeça dos “descamisados” é bem diferente daquela que os intelectuais preferem. Mas quem leu meu último post sabe o que penso sobre botar cultura na mesa do povão.

Como não estou escrevendo para pessoas que mal terminaram o ensino básico, vamos ao que interessa. Inicialmente vou descer a lenha de leve no contexto do material que recebi. Basta dizer que é fruto de pessoas que se preocupam em demasia em defender os pobres. Preocupar-se com os pobres é algo nobre e necessário, mas fazer isso de maneira menos apaixonada e menos embasada em teorias que já se mostram ineficientes pode aumentar a quantidade de pessoas que apóiam sua visão de mundo. Ou alguém em sã consciência ainda acredita que o Comunismo é a chave para os males do Capitalismo? Ao menos o Capitalismo ultimamente anda tirando muita gente da miséria, ao passo que o Comunismo continua impondo à população ainda sob esse regime uma vida cheia de privações.

Ideologias à parte, o texto do sr. Vito Giannotti, com citações de uma entrevista concedida por Adriano Oliveira ao jornal O Globo em outubro do ano passado, traz uma lista de pessoas cujo péssimo caráter serviria para escrever roteiros e mais roteiros de filmes sobre essa chaga brasileira chamada Segurança Pública. A violência nos grandes centros (e que está cada vez mais próxima das pequenas cidades do interior) é algo que beneficia os verdadeiros e poderosos traficantes, segundo os senhores supracitados, os quais estão entre juízes que vendem sentenças, advogados entrelaçados intimamente com atividades criminosas, sobretudo ao tráfico de drogas; empresários especializados em lavagem de dinheiro, políticos e funcionários públicos das mais diversas instituições e escalões, desde um simples investigador da Polícia Civil ao mais alto delegado da Polícia Federal. Quero enfatizar que os responsáveis por essa teoria são os senhores Vito Giannotti e Adriano Oliveira, que em sua defesa apaixonada do favelado, do pobre, dos marginalizados, voltam suas armas para pessoas que estão em diversos postos importantes do sistema sócio-econômico-jurídico-político nacional.

Fica difícil afirmar que eles têm um fundo de razão. Os "Lalaus" e "Garotinhos" da vida estão aí para reforçar esse ponto de vista. Mas daí a querer crucificar os policiais que cumprem seu dever doa a quem doer é querer que as coisas se ajeitem sem esforço. Não é necessário que pessoas ditas de bem, que eventualmente moram em favelas, sofram os abusos por parte de quem deveria lembrar qual é seu lema e dever: “Servir e Proteger”. Mas criticar apenas por criticar não resolve nenhum problema. Apenas aumenta a animosidade entre os pólos dessa disputa. Além de criticar, esses intelectualóides de esquerda deveriam propor sugestões para que os cidadãos trabalhadores, que moram em lugares onde o crime se prolifera, possam melhorar suas condições de vida. Mas como é mais fácil ficar apontando o rabo dos outros, essas pessoas preferem ficar no conforto de suas vidinhas ao invés de efetivamente trabalhar para o bem-estar geral.

Caso você tenha chegado até aqui e queira tirar suas próprias conclusões sobre o material que recebi dessa colega, seguem os mesmos abaixo. E eu agradeceria muito se houvesse uma opinião de sua parte nas espinafradas.

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Pesquisador da UFPE lança livro "Tráfico de drogas e crime organizado – peças e mecanismos": a melhor base científica para discutir Tropa de Elite

[Por Vito Giannotti] O Globo,de 28/10 nos traz uma rara e grata surpresa. Traz uma entrevista com Adriano Oliveira que é um maná para quem quer entender a desgraça político-ideológica que representa o filme Tropa de Elite.

Em síntese mostra que o problema não começa e nem acaba nas favelas das nossas cidades. Ele desvenda, como resultado de suas pesquisas, sintetizadas em sua tese, o que todos estão cansados de saber, mas que não foi mostrado e nem insinuado naquele filme.

No artigo que escrevi para o Brasil de Fato (www.brasildefato.org.br), do dia 24 de outubro, falava exatamente das mesmas coisas das quais fala Adriano. Ele fala dos grandes traficantes, dos verdadeiros chefões interessados em que o tráfico não acabe e, conseqüentemente, a droga não seja descriminalizada: juízes que vendem sentenças, advogados totalmente entrelaçados com esta atividade criminosa, empresários especializados em lavagem de dinheiro e funcionários estatais de vários escalões e todo tipo de policias, da civil, passando pela militar até chegar à federal. Enquanto isso, o Tropa de Elite ensina a cantar o hino do extermínio dos que moram em favelas: "Homens de preto quando entram na favela – é pra deixar corpo no chão". Leiam em O Globo, de 28/10, na página 15/País, a entrevista de Adriano Oliveira.

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Cinema
Para o filme Tropa de Elite, “favelado bom é favelado morto”

[Por Vito Giannotti]

“Homens de preto, qual é sua missão? É entrar na favela e deixar corpo no chão”. Começo este artigo copiando a abertura de outros dois artigos dos que mais gostei no mar de análises sobre o filme Tropa de Elite. Claudia Santiago e Ivan Pinheiro iniciam seus textos reproduzindo o refrão cantado pelo Bope nos seus treinamentos. É nele, exatamente, que está a linha geral do filme que, independentemente das intenções do produtor e dos atores, é um hino ao Bope (Batalhão de Operações Especiais que atua nas favelas do Rio). Neste refrão, está a mensagem central do filme.

Discute-se muito se o filme é de direita, se é fascista ou nazista. Para mim, ele contribui para consolidar, entre a população, a idéia de legitimidade das ações policiais que exterminam pobres e moradores de favelas no Rio de Janeiro. E faz isto no momento em que militantes de direitos humanos travam, na cidade, uma luta para pôr fim a esta violência. Fruto desta batalha, inclusive, foi criada, a Rede Nacional de Jornalistas Populares que, em seu lançamento, contou com a presença da mãe de uma das vítimas da violência policial.

Ou seja, independentemente da vontade de seus executores, o filme serve muito bem às idéias que a direita semeou: todo pobre é perigoso, é ladrão, é bandido. Todos. Basta ser pobre, de preferência negro, para ser, no mínimo, suspeito.

Se a missão do Bope é “entrar na favela e deixar corpo no chão”, a mensagem que o filme passa é que na favela só tem criminoso, assassino, traficante a ser deixado no chão. Esta é a primeira, a segunda, a terceira, a quarta idéia do filme. É a idéia mais nociva.

Ivan Pinheiro, ao final do seu artigo propõe uma interpretação, com a qual estou de acordo, sobre o resultado ideológico–político do filme: “Em qualquer país em que "Tropa de Elite" passar, principalmente nos Estados Unidos e na Europa, o filme estará contribuindo para que a sociedade se torne mais fascista e mais intolerante com os negros, os imigrantes de países periféricos e delinqüentes de baixa renda.”

Um festival de idéias de direita

Há um hábito, no Brasil, de quase ninguém se assumir como de direita. Hoje, este costume se reforça com a balela de que direita e esquerda não existem mais. Acabou tudo. O filme nos mostra que, ao contrário, a diferença entre direita e esquerda está mais viva do que nunca.

Tropa de Elite não só apresenta, através da narrativa da filosofia do Bope, um grande quadro de idéias de direita, como as mostra de maneira simpática, dinâmica e as justifica. O público, obviamente, se comove com o policial com síndrome de pânico, embora este seja torturador de homens, crianças e mulheres e assassino. E se encanta com aquele que reconhece a miopia do menino. Se é tão bom, é possível compreendê-lo quando se transforma devido a perda do amigo, que queria ajudá-lo, em assassino e torturador. Então justifica a barbaridade dos homens de preto que têm como missão “entrar na favela e deixar corpo no chão”.

Ou seja, não interessa se de propósito ou não, o filme faz campanha e reforça, no coração e na mente de milhões, idéias contra as quais a esquerda de bateu há séculos.

No artigo de Claudia Santiago há um roteiro de algumas das idéias altamente nocivas do filme. Ela afirma: “Os membros do Bope são mostrados como heróis incorruptíveis, dispostos a combater o crime a qualquer custo, mesmo que este custo seja `esculachar moradores`, condenar sem julgamento, torturar crianças e companheiras de traficantes e matar”. Para ela, a prática da tortura, da pena de morte aplicada de maneira informal, a ridicularização da luta pelos direitos humanos são algumas das várias lições de direita que este filme dá aos espectadores. A culpa do tráfico jogada em jovens estudantes “maconheiros”, sem procurar os grandes responsáveis pelo tráfico que não querem que ele acabe é outro ponto forte do filme.

Um ponto de vista que defende o extermínio dos moradores de favelas

O filme faz sucesso por dois motivos:

. Trata do tema que mais preocupa a sociedade brasileira: a violência e a segurança.

. Retrata e reproduz as idéias dominantes da sociedade sobre a favela, os pobres, os negros, ideologia espalhada pelos quatro Cavaleiros do Apocalipse da comunicação de direita nacional: Folha de S. Paulo, O Estadão, O Globo e Veja.

A capa desta revista, no seu número 2030, de 17/10, não deixa dúvidas sobre o caráter do filme. A manchete é “Pegou geral”. Em seguida, Veja nos esclarece com a seguinte legenda: “O filme Tropa de Elite é o maior sucesso de nossa história porque trata bandido como bandido e mostra usuário de droga como sócio dos traficantes”.

Esta mensagem, que tanto agrada à revista, não é novidade. Não foi o José Padilha quem as inventou. Sempre se falou que “Bandido bom é bandido morto”. Sempre, entre a classe dominante, desde o tempo da Casa Grande e da Senzala, existiu o pavor-pânico das “classes perigosas”, isto é, dos pobres. Sempre se confundiu pobre com criminoso. São idéias que têm origem na tradição secular de uma sociedade escravocrata dividida entre a Casa Grande e a Senzala. O que o filme faz é simplesmente reforçar toda esta ideologia.

Há várias falas e imagens, ao longo do filme que consagram a idéia de que a favela é lugar de bandido: “O farda preta entra na favela para matar”, se ouve lá pelas tantas. Sim, matar. Matar a quem? Lógico, aqueles bandidos favelados.

O filme esconde a raiz da guerra do tráfico

Desde as primeiras cenas aparece a tal “guerra”. Guerra de quem contra quem? A quem interessa esta guerra? Por que não se acaba com esta guerra? A única solução que o filme aponta é o extermínio. De quem? Dos generais desta guerra? Não. Não há chefões, não há gente interessada em não acabar com esta guerra. Ela existe e ponto final.

Quem disse que esta guerra precisa existir? Não há outras hipóteses? Não há a possibilidade das “drogas serem vendidas em drogarias”? Não há a possibilidade, através da liberação, de acabar com o tráfico e com esta guerra? Há muita gente que acha que assim diminuiria o uso de drogas.

Já se tentou imaginar uma sociedade sem tráfico... sem corrupção policial, sem armas contrabandeadas, sem propinas para advogados e juizes? E, sem tráfico de drogas, como ficaria a lavagem de dinheiro praticada por muitas empresas? Outra pergunta: O tráfico é coordenado por quem? Será que os chefes do exército do tráfico são aqueles garotos de olhos esbugalhados que ficam lá no alto dos morros dando tiros sem saber em quem e pra quê?

O filme não fala nada sobre esta parte da realidade. Então, não venham me dizer que o filme refletiu a realidade. Não. Refletiu a parte da realidade que queria ver. A outra foi deixada no escuro e não vai ser vista por quem o assistir.

A imagem que fica é a do morador de favela, traficante. Este tem que morrer, porque, os heróis que o filme apresenta para nossa sociedade idolatrar, os Bope, vestidos de preto, continuam cantando que sua “missão é entrar na favela e deixar corpo no chão.” Corpo de pobre, evidentemente. Não daqueles que vivem da guerra dos meninos do tráfico contra os homens de preto, que rende bilhões de dólares anuais para os verdadeiros chefões do tráfico.

domingo, 1 de junho de 2008

Entre o comer e o alimentar-se

Estamos comendo muito, mas nos alimentando mal. E isso não apenas quando falamos da comida propriamente dita. Na cultura os ciclos entre o bom e o mau alimento se tornam cada vez mais díspares.

Atualmente você poderia citar, no cenário nacional, quantas pessoas produzem cultura e o fazem de maneira original? Sobraram dedos e faltaram nomes para citar, certo?

Quem sabe isso seja reflexo da nossa compulsão pelo rápido, fast-food, atualizações diárias, enfim, estamos com muita pressa em consumir e pouca paciência para saborear o produto do consumo. A cada dia somos apresentados a um novo salvador do rock, a um novo escritor inovador, a uma nova vida cheia de expectativas que nunca se concretizarão e isso justamente porque estamos preocupados e ter tudo e ter muito sem saber exatamente o que queremos.

De que adianta ter um sebo em casa se os livros foram lidos apenas para que se diga “eu leio muito”? Se o conteúdo do material não foi absorvido, qual a razão para se orgulhar do sebo caseiro? O brasileiro lê muito pouco, mas ler apenas para sentir-se acima da média é burrice.

A televisão, por outro lado, vem sofrendo com a necessidade de sempre colocar algo novo e inédito no ar. Não é à toa que o YouTube é um sucesso. Sempre tem alguém com alguma idéia, de jerico ou genial, que está por lá. Ótimo, a democratização da cultura é algo que pode ser fantástico.

A internet acelerou ainda mais o mundo nos últimos anos e isso está sendo mal aproveitado pela atual geração. A inclusão digital serve apenas para que os governantes digam que cada vez mais pessoas têm acesso à internet.

Grande coisa! Se essas pessoas não tiverem discernimento e capacidade crítica para entender o que de bom existe numa conexão com o mundo a serventia de tudo isso é nula. Antes de colocar um computador na frente de uma criança, ela precisa saber ler e interpretar aquilo que lê. Antes de dar acesso ilimitado a um mundo totalmente absorvente como a internet consegue ser, deveria ser dada ao povão a capacidade de entender aonde ele pode chegar com essa ferramenta.

É muito mais fácil criticar uma pseudo-elitização da cultura do que efetivamente pensar em meios de popularizar a BOA cultura, aquela que não expõe crianças de maneira antecipada à sexualidade, aos horrores da violência, ao consumismo desenfreado.

É justamente a banalização da cultura que nos coloca à mercê de aberrações como a necessidade da discussão de uma lei que proíbe a propaganda de bebidas alcoólicas na TV. O bom senso já deveria capitanear a cabeça das agências de publicidade a ponto delas perceberem que, ao colocar uma modelo fabulosa de biquíni com uma garrafa de cerveja na mão em propagandas de TV, se está incentivando a barbárie do excesso do consumo da bebida alcoólica.

Os números do último feriadão estão aí para confirmar: brasileiro não sabe beber com responsabilidade. A lei que efetivamente vai diminuir, ao menos é isso que se espera, as causas de acidentes nas estradas chegou agora, na semana que passou. Quantas vidas precisaram ser ceifadas até que se percebesse o elo entre a irresponsabilidade na ingestão de álcool e as mortes nas estradas?

Como se vê, de nada adianta o Brasil ter atingido o grau de investimento se o seu povo ainda acha que “feio é roubar e não poder carregar”. Enquanto existirem pessoas que se dizem partidárias do povo e que crêem que um Bolsa-Família é a resposta para os problemas dos mais pobres, vamos continuar assistindo ao empobrecimento da cultura e da civilização ao som do MC Créu e seus genéricos.