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quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Estômago


Eis aqui minha primeira vez no cinema. Tá, não apareço nem como personagem de mínima expressão, fui apenas figurante, mas serviu de experiência. Pude notar que fazer cinema, pra quem prefere resultados no curto prazo, é chato. E trabalhoso pra cacete (as filmagens foram realizadas há dois anos), para toda a equipe. Mas dá pra entender muito bem a razão que leva alguns atores a pirar depois de determinados papéis.

Como nunca se fecha uma cena em apenas um dia de filmagem, o ator precisa encontrar meios de permanecer com a essência do personagem sempre ativa até o próximo dia de trabalho. Isso implica em mergulhar profundamente no universo daquele ser que está sendo interpretado. Bom, se eu fosse ator (e acredito que os bons atores assim o façam) iria me tornar meu personagem até o último take do filme.

A parte técnica então é tão ou mais trabalhosa do que a imersão do ator em seu personagem. Cada detalhe em cena é meticulosamente analisado, pois numa tela de cinema qualquer pequena falha se torna gigante. Um exemplo: a cena na qual faço figuração se passa em um boteco pé-sujo. Porém a locação desse boteco era um bar real, que havia sido recém reformado. De tal forma, foi preciso maquiar o lugar para que parecesse sujo e velho. Cada figurante foi avisado para não esbarrar nas paredes azulejadas, pois a mesma havia recebido uma camada de “maquiagem” para dar a impressão de que estava engordurada. E toda vez que um cabeça de vento cometia o deslize de encostar na parede tinha que parar tudo e refazer a cena.

A cena em questão dura pouco mais de cinco minutos, mas levou-se mais de 5 horas para ser filmada. Pra piorar tinha gente da equipe do filme que se achava estrela de primeira grandeza e volta e meia tinha chiliquinhos. E em quem esse pessoal descontava a frustração? Nos figurantes, claro.

Mas apesar de não recebido um tostão pela participação como figurante (nem um mísero ingresso de cinema para assistir ao filme) fiz questão de alugá-lo agora que saiu em DVD e pude ver que o trabalho todo ficou muito bom. Aliás, o filme está bombando em diversos festivais mundo afora. Isso porque a história é simples, por vezes até clichê, mas muito bem contada.

Raimundo Nonato (clichê) sai do nordeste para o sudeste (clichê) para tentar vida nova (clichê). Chegando na cidade grande Raimundo precisa se virar para conseguir comida e abrigo.
Consegue isso trabalhando num boteco de quinta categoria, onde mostra possuir mão para a cozinha, pois consegue aumentar a freguesia do local devido ao sucesso de suas coxinhas. É nesse ambiente que ele conhece Íria, uma prostituta e se envolve com a mesma; e também conhece um dono de restaurante que, acreditando em seu potencial como cozinheiro, o convida para trabalhar consigo.
Só que a história não é linear. Começa com Raimundo Nonato chegando à prisão. Esse é o mote do filme: descobrir o que o pacato personagem fez para estar naquele ambiente, onde faz uso de suas habilidades culinárias para conseguir respeito e sobreviver.

E nas idas e vindas entre a rotina do presídio e o dia-a-dia de Nonato até sua condenação vemos muitas situações divertidas, sem esquecer que esse é um filme brasileiro, ou seja, tem lá sua dose de putaria e palavrões.

O saldo final de Estômago é um filme interessante, com um bom elenco e tecnicamente bem feito e isso você encontra na maioria dos blogs sobre o filme. Particularmente eu tinha uma razão pessoal para ver Estômago, mas depois de assistí-lo, percebi que realmente é um ótimo filme. Recomendo e aproveito para revelar que a maioria das locações são em Curitiba, quem é daqui identifica fácil alguns pontos da cidade no filme. :P