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domingo, 11 de novembro de 2007

Tropa de Elite


Quem assistiu não tem dúvidas: Tropa de Elite é uma das melhores produções realizadas no país. As falhas são mínimas e não comprometem em nada o filme. Dentre as poucas existentes, cito o fato do filme se passar em 1997, mas em algumas cenas mostradas estão rodando veículos modelo 2005/06, bem como uma ou outra propaganda da Skol descendo redondo, coisa que em 97 não havia. O que mais irrita, porém, é o fato de Tihuana ser a banda escolhida para a música tema. Não é possível que não exista nenhuma melhorzinha na galeria nacional.

Mas vamos ao que interessa. Todo o auê em cima do filme se justifica, quer seja pela pirataria que “lançou” o filme, quer seja pelos temas abordados. Existem aqueles que defendem a teoria de que as cópias piratas apareceram nas ruas como golpe de marketing e esses são, no mínimo, malucos. Ninguém daria um tiro no pé nessas proporções, ainda mais quando havia tanta grana envolvida no orçamento do filme. Outros, que defendem a pirataria como modo de “popularizar a cultura”, são os mesmos babacas que não vêem o usuário de drogas como culpado direto pela maneira como o crime organizado se desenvolveu. E o usuário de drogas é, sim, criminoso sob meu ponto de vista. A sua descriminalização, conforme a Lei de Tóxicos (11.343/06), é equivocada. Eu vejo as coisas sob o mesmo prisma do Capitão Nascimento: usuário e traficante são duas faces da mesma moeda. O tratamento para ambos deve ser igual, pois um não existe sem o outro, a exemplo do que acontece no esquema ladrão-receptador.

As cenas de tortura por parte dos policiais do BOPE mostram que mesmo uma polícia bem treinada também comete excessos. Mesmo levando em conta que o combate à criminalidade deve ser encarado como uma guerra, a tortura é uma mancha que os policiais “especiais” deveriam abominar tanto quanto a corrupção. Existem maneiras de lutar uma guerra sem o uso desse expediente. Estatísticas demonstram que uma polícia que se mostra mais próxima à população e menos violenta traz mais benefícios e é mais respeitada do que uma truculenta e temida. Respeito não se impõe, se conquista. E não tem como negar: Wagner Moura consegue transmitir toda a dualidade do Capitão Nascimento de maneira soberba em suas cenas.

O que mais admira, no mundo real, é saber o valor do soldo de um policial militar no Rio de Janeiro, que é de R$ 900,00 aproximadamente e o dos membros do BOPE é de R$1.400,00. Em uma cidade cujo custo de vida não permite viver bem com menos de R$5.000,00 mensais, quem sobrevive com essa merreca e arrisca o pescoço pra manter a segurança da população é herói e deveria ser muito respeitado. Penso que médicos, professores e policiais deveriam ser os mais bem pagos na folha do funcionalismo público. Com baixos salários, policiais vivem em áreas ocupadas por bandidos e, nessa situação, é como o filme fala: ou se omite, ou se corrompe.

O tom utilizado em entrevistas e eventos sobre o filme pelo diretor José Padilha, amenizando as críticas aos usuários e defendendo a legalização do comércio de drogas soa como hipocrisia ou pressão de algum poderoso que não gostou da forma como os usuários foram retratados, afinal só quem tem grana pode se dar ao luxo de sair por aí se entupindo de cocaína. Ora, Padilha... Sabemos que existem drogas legais e socialmente aceitas, mas a legalização do consumo de maconha, cocaía e demais entorpecentes em nada vai diminuir a violência nesse país. Se a população não sabe fazer uso das drogas legais, especialmente o álcool, o que dizer sobre outras, mais pesadas? Além do mais, não há estrutura para coibir eventuais excessos, conforme já se observa em festas e no trânsito.

Deixando a parte polêmica de lado é fácil afirmar que Tropa de Elite em nada deve às produções americanas, até porque tem capital gringo na produção. O ritmo é bem conduzido, as situações não são mastigadinhas ao ponto da audiência se sentir estúpida e o filme não cansa. Dá pra ver e rever algumas vezes, porque as interpretações estão afiadas, o roteiro é interessante e a cada vez que se revê o filme, só aumentou a repulsa aos métodos utilizados pelos policiais na obtenção de informações (ao menos no meu caso, que já vi o filme 3 vezes). Não é à toa que a imprensa escrita aproveitou o bonde do filme e colocou nas bancas material abordando temas ligados ao filme, pois isso vende que é uma beleza. Porém, de todos os textos que li relativos ao filme, o melhor foi na Rolling Stone, que conseguiu manter um pouco da parcialidade necessária na abordagem dos temas espinhosos, diferente da linha editorial da Veja, por exemplo. Lamento não ter lido nada a respeito na Carta Capital, que é a linha de frente na defesa de gente que nem sempre prima pela ética e pelo respeito às leis e instituições democráticas, pois nela volta e meia se lê defesa de gente que deve muito e paga pouco pelos crimes cometidos. O embate idealista entre Veja e Carta Capital é algo divertido de se ver, pois uma é a antítese da outra, com raras cabeças moderadas a escrever em suas colunas. Mas isso já é outra história.

Pra terminar, aproveitei a dica do b0by e fui ver quem eu seria no filme.



Nota 8,5