Eis um filme que só não foi mais apreciado porque não sou norte-americano. Há algum tempo eu ansiava por assisti-lo, mas nunca surgia a oportunidade. Não é nenhuma superprodução, não existem reviravoltas mirabolantes no roteiro, mas atuações são sinceras, consistentes e o filme efetivamente só diz alguma coisa àqueles que percebem na história as alfinetadas que George Clooney dá na administração George Bush e na imprensa norte-americana.
Comercialmente não foi um sucesso, afinal o público atual dos cinemas normalmente procura filmes mais visuais do que com conteúdo e dificilmente Boa Noite e Boa Sorte seria digerido pelas platéias comuns. É um filme cujo maior trunfo está nos diálogos, mas a direção de Clooney se mostra acertada nas escolhas realizadas, tanto técnicas quanto artísticas.
Trazendo o filme para os acontecimentos atuais, é bem verdade que os tempos são distintos. Aquilo que o senador McCarthy fazia na década de 50 é muito diferente do que os membros do governo Bush fizeram no auge da caça aos terroristas, mas as conseqüências geradas são basicamente as mesmas. A discussão do papel da imprensa faz com que o filme também mostre como estamos mal atualmente, com linhas editoriais obscuras, nem sempre buscando informar. O cerceamento de liberdades, ponto chave no filme, sempre é algo que provoca reações daqueles que efetivamente conseguem visualizar o cenário por completo, notando que nem sempre os fins justificam os meios. E ainda que o “preço da liberdade seja a eterna vigilância”, há de se entender o contexto de liberdade e vigilância. Vigiar aqueles que são considerados subversivos apenas por serem contrários às suas opiniões torna o vigilante uma ameaça ainda maior.
Nesses momentos os veículos de comunicação devem buscar desempenhar seu papel, oferecendo a seus consumidores um ponto de vista que lhes permita escolher uma posição. Mas com a visível regressão cultural que a maioria dos povos está demonstrando, fica realmente difícil colocar as opções na mesa de maneira limpa. Ao menos é assim que eu percebo os noticiários atuais, as publicações semanais e os jornais diários. Filtrar aquilo que interessa no extenso mar de informações que hoje nos é oferecido é tarefa complicada. E sempre tenho a sensação de que querem me vender algo que não deveriam.