domingo, 16 de março de 2008

Boa noite e boa sorte

Eis um filme que só não foi mais apreciado porque não sou norte-americano. Há algum tempo eu ansiava por assisti-lo, mas nunca surgia a oportunidade. Não é nenhuma superprodução, não existem reviravoltas mirabolantes no roteiro, mas atuações são sinceras, consistentes e o filme efetivamente só diz alguma coisa àqueles que percebem na história as alfinetadas que George Clooney dá na administração George Bush e na imprensa norte-americana.

Comercialmente não foi um sucesso, afinal o público atual dos cinemas normalmente procura filmes mais visuais do que com conteúdo e dificilmente Boa Noite e Boa Sorte seria digerido pelas platéias comuns. É um filme cujo maior trunfo está nos diálogos, mas a direção de Clooney se mostra acertada nas escolhas realizadas, tanto técnicas quanto artísticas.

Trazendo o filme para os acontecimentos atuais, é bem verdade que os tempos são distintos. Aquilo que o senador McCarthy fazia na década de 50 é muito diferente do que os membros do governo Bush fizeram no auge da caça aos terroristas, mas as conseqüências geradas são basicamente as mesmas. A discussão do papel da imprensa faz com que o filme também mostre como estamos mal atualmente, com linhas editoriais obscuras, nem sempre buscando informar. O cerceamento de liberdades, ponto chave no filme, sempre é algo que provoca reações daqueles que efetivamente conseguem visualizar o cenário por completo, notando que nem sempre os fins justificam os meios. E ainda que o “preço da liberdade seja a eterna vigilância”, há de se entender o contexto de liberdade e vigilância. Vigiar aqueles que são considerados subversivos apenas por serem contrários às suas opiniões torna o vigilante uma ameaça ainda maior.

Nesses momentos os veículos de comunicação devem buscar desempenhar seu papel, oferecendo a seus consumidores um ponto de vista que lhes permita escolher uma posição. Mas com a visível regressão cultural que a maioria dos povos está demonstrando, fica realmente difícil colocar as opções na mesa de maneira limpa. Ao menos é assim que eu percebo os noticiários atuais, as publicações semanais e os jornais diários. Filtrar aquilo que interessa no extenso mar de informações que hoje nos é oferecido é tarefa complicada. E sempre tenho a sensação de que querem me vender algo que não deveriam.

3 comentários:

  1. Ah, eu gostei, especialmente pela atuação de David Strathairn e pela seriedade adotada ao falar de problemas que, final, são MUITO sérios mesmo. Reparou que ele nem tem música incidental? Se me lembro bem, são apenas duas intervenções contextualizadas de uma fenomenal cantora de jazz.

    Além da qualidade do filme, ainda tive o prazer de saber de onde veio a locução presente numa faixa de Document, do REM (não lembro agora se é "Disturbance At The Heron House" ou "Exhuming McCarthy"), em que o juiz do caso diz a ele, ao ouvi-lo mentir: "Have you left no sense of decency?" (não te sobrou nenhum senso de decência?)

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  2. Se a maioria dos filmes atuais fossem tão bons quanto Boa noite e boa sorte...

    Não tinha reparado na "falta" da trilha incidental até você mencioar, guri! Boa observação. Isso mostra que num primeiro momento, assistir ao filme mais vezes pode mostrar outros detalhes que passam despercebidos.

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  3. O filme é ótimo, mas me diverti mesmo foi com o filme que vimos em seguida, "A Hora da Estrela". Nossa, que dó da Macabéia!!!
    Beijos, TAM

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